Andrei Miralha é paraense,
graduado em arquitetura, criador de histórias em quadrinhos e produtor de
cinema de animação.
Inicialmente, comente um pouco
sobre a sua origem e formação.
Nasci e cresci em Belém do Pará,
comecei a desenhar aos 8 anos de idade, copiando desenhos do Maurício de Souza
e Walt Disney, e porque gostava de desenhar me formei em Arquitetura e
Urbanismo em 1997. Na adolescência fiz parte de um grupo de quadrinhos chamado Ponto de Fuga, que realizava exposições e produzia
um fanzine, chegamos a ter uma gibiteca. Comecei a me interessar por animação depois que fui indicado pela Fundação
Curro Velho, onde ministrava oficinas de desenho desde 1993, para participar de
um workshop promovido por um festival de cinema em Belém. E a
partir daí iniciei minha trajetória com animação.
Fale de sua trajetória até esse momento.
Em 2003, surgiu o convite de um
amigo pra produzir um teaser promocional para o projeto de animação chamado
“Águas e Vidas”. Esse teaser serviria para captação de recursos e realização
do filme, mas ocorreram muitos problemas para a
realização desse trabalho e nessa mesma época o Cássio Tavernard iniciava o
projeto do curta “A Onda-Festa na Pororoca” e já havia me convidado para
participar. Como o “Águas e Vidas” tinha empacado,
algumas pessoas, que estavam nesse projeto foram arrastados pela “Onda”, e assim produzimos o curta que inicia esse boom
da animação no Pará. Em 2005, dirigi e produzi o curta “Admirimiriti” que já
participou de vários festivais e mostras em diferentes regiões do Estado, chegando até a França. Em 2009, dirigi e produzi o Muragens - Crônicas de um Muro,
que foi o primeiro curta paraense na Mostra Competitiva do Anima Mundi 2009. Participou
do Festival Monstra (Portugal) e Animasivo (México), e em 2010 ganhou o prêmio
de Melhor Animação no FestCine Amazônia (Rondônia) e o prêmio de Melhor
Curta-metragem de Ficção no Festival Noites com Sol (Pará). Em 2012 foi a vez
do curta “Nossa Senhora dos Miritis”, prêmio do edital do Ministério da
Cultura, que também competiu no Anima Mundi 2012, participou do Anima Mundi
Itinerante 2012 e este ano está no Festival Internacional do Cinema Infantil.
Ano passado, com o patrocínio do Banco da Amazônia, lançamos o DVD Miritis que
contém os curtas “Admirimiriti”, “Nossa Senhora dos Miritis” e o documentário
”Miriti-Miri”.
Como foi essa
transição dos quadrinhos para a produção do cinema de animação?
A história do cinema de animação
está repleto de autores de quadrinhos que flertavam com animação. Winsor
MacCay, criador do personagem Litle Nemo, grande sucesso na década de 20, é
considerado um dos precursores da animação. Comigo não foi diferente, eu também
acabei passando dos quadrinhos para a animação, mas sem a pompa do MacCay que
era um mestre dos desenhos. Acho que produzir histórias contadas em sequências
de imagens tem uma relação muito forte com o próprio cinema. Por um lado, os
quadrinhos se aproximam da literatura no que se refere ao texto escrito, e por
outro ao cinema, com seus diversos tipos de enquadramentos para contar uma
história, e assim ditar um ritmo de leitura. Apesar de algumas pessoas
classificarem os quadrinhos como um tipo de literatura, acredito que se trata
de uma linguagem específica. Atualmente, estou mais fascinado com as
possibilidades gráficas infinitas das animações, onde tudo é possível, tanto na
forma, quanto no movimento. É justamente essa liberdade de criação que me
fascina. O curta Muragens - Crônicas de um Muro, que produzi em 2009, é um
divisor de águas pra mim, pois ali pudemos exercitar bem esse potencial
expressivo que animação permite.
O que estais pesquisando ou
produzindo atualmente?
Recentemente, concluí as
animações do curta “Quem Vai Levar Mariazinha pra Passear” que foi premiado no
edital “Curta Criança” do ministério da Cultura e Tv Brasil. O curta, dirigido
por André Mardock, é adaptação de um espetáculo teatral, de mesmo nome, de
Ester Sá e Maurício Franco. O filme trás ação direta (filmado com atores) e
animação com personagens criados com recortes de papel, e foi aí que eu entrei.
No momento, inicio as animações de uma série de três curtas de um minuto
chamado “Para Vler Poesia” do meu amigo Marcílio Costa, que foi um dos
contemplados no edital de animação da Tv Cultura, que deve ser concluído até
setembro deste ano. E depois desse, já emendo em outro projeto, o “Pedaços de
Pássaros” outra parceria com o Marcílio, que acaba de ser premiado no edital de
curta metragens do Ministério da Cultura. É um ótimo momento em minha carreira
para a afirmação deste caminho que escolhi.
Como o cinema de animação pode
estar inserido em ambientes educacionais (escolas, fundações, ONGs)?
A animação pode ser um excelente
recurso didático. O Anima Mundi desenvolve um projeto chamado Anima Escola
desde 2001, e obteve ótimos resultados. O processo inicia-se com a capacitação
de professores, para depois chegar aos alunos. Tenho planos de fazer algo
parecido aqui em Belém. Atualmente, desenvolvo um projeto de núcleo de Animação
na Fundação Curro Velho, e uma das propostas é justamente essa. De trabalhar
essa linguagem em algumas escolas públicas em que a direção e os professores apoiem
essa iniciativa.
Como é possível formar novos
produtores?
Através de muito estudo, de
experiências práticas e cursos específicos. Na verdade, se considerasse que
apenas através de cursos seja possível formar um animador, desconsideraria muita gente que
produz animação e que nunca passou por um curso profissionalizante, e são ótimos
profissionais. Mas com certeza, através de um curso, você tem a possibilidade
de aprender com quem já faz, e assim você pula etapas, aprende mais rápido, aprende métodos mais
eficientes. Mas de qualquer forma, não há nada como a prática. Por isso, estagiar
num bom estúdio de animação é uma excelente oportunidade de aprendizado. Nesse
sentido, como comentei anteriormente, estamos desenvolvendo na Fundação Curro
Velho, um núcleo de animação que além de promover oficinas de iniciação a
animação, irá dispor de um estúdio que contará com estagiários para produção
constante de curtas de animação com caráter experimental e artístico. Acredito
que esta ação contribuirá para o desenvolvimento desta linguagem no Pará. Mas
isso é só o primeiro passo, quem sabe um dia consigamos ter um curso acadêmico
de especialização em animação aqui no Pará.
Entrevista
exclusiva concedida ao Blog Arte: Pesquisa e Ensino.