Cirilo é graduado em Educação
Artística (2004), especialista em Semiótica e Artes Visuais (2006) e mestre em
Artes pela Universidade Federal do Pará (2011). Trabalha com pesquisa, produção
e educação na área de Artes Visuais.
Em que medida as atividades
profissionais que hoje realizas como artista visual, músico, gestor público,
pesquisador e educador, resultam da tua origem ligada ao distrito de Icoaraci,
em Belém do Pará?
Acredito que o principal dado que Icoaraci me ofereceu ao longo de todos
esses anos e que ecoa na minha prática profissional, na minha forma de me
relacionar e entender o mundo, está na percepção de experenciar o tempo; o
desejo de procurar saber desfrutá-lo. A distância geográfica que o distrito de
Icoaraci possui de praticamente todos os lugares do mundo me ensinou a
possibilidade de apreciar e valorizar o caminho, o percurso, a trajetória, e
digo isso em diversos sentidos, sendo o principal deles, o de estimar e
valorizar mais as experiências do presente do que os resultados imagináveis do
futuro. É pela observação das ruas; do tempo, das pessoas e das coisas pelas
janelas dos ônibus ao longo do trajeto de casa para o centro e vice versa, que
vislumbro ideias, elucubro possibilidades. É no tempo passado nos ônibus que
leio, estudo, ouço música, observo, aprendo, reflito. Atravesso atualmente um
processo profundo de mudança. A Bonsalvage, banda da qual fiz parte entre 2008
e 2012, acabou, e me vejo cada vez mais envolvido com o meio acadêmico,
ministrando aulas de desenho e de composição visual, e buscando cada vez mais
me qualificar nesse sentido. Há sempre a necessidade de se qualificar, de
estudar cada vez mais. De 2009 para cá me dediquei ao mestrado em Artes, pela
UFPA, curso que concluí em 2011. Percebo que minha produção em artes visuais
começa a passar por transformações também. Recentemente, me mudei de Icoaraci,
passando a morar em Ananindeua. Ananindeua é longe, mas decerto, não se compara
em nada ao que Icoaraci tem e é nesse sentido.
No período que se estende da tua
primeira incursão como artista visual em 2001 até o momento atual, como tu
analisas a trajetória da arte brasileira contemporânea?
Percebo que, pelo menos em Belém, no ano de 2001 as coisas eram bem
diferentes do cenário que se tem hoje, o que se deve, talvez, ao espírito de
mudança daquele período. Havia um clima propício para as coisas acontecerem,
uma movimentação espontânea na cidade em torno das questões da arte.
Exposições, investimentos, ocasiões e eventos nos quais se discutiam e se
debatiam sobre diversos temas; o surgimento de novos museus e galerias, e, por
incrível que pareça, havia público nesses eventos e lugares. Hoje, pelo menos
aqui, o que percebo é a existência de uma apatia geral. Uma paisagem modorrenta,
na qual não há investimentos; equipamentos culturais são fechados ou
encontram-se falidos. Os artistas e suas produções padeceram de um movimento de
retração, e ainda que alguns poucos editais ofereçam alguns subsídios e apoios
para estes, tais chamarizes parecem insuficientes e desinteressantes para fazer
com que esses produtores se sintam estimulados a agenciar e expor suas obras na
cidade. E assim como os artistas, o público se retraiu. Não há público, nem
mercado, nem investimentos, nem espaços adequados, com uma estrutura ideal, e o
que se tem é a indiferença e um marasmo.
Nos grandes centros culturais e econômicos do país, contudo, começa-se a se
discutir e a se buscar a constituição de práticas mais consolidadas de mercado.
Nesses lugares, as artes visuais parecem receber melhores investimentos; e lá
há mais espaços, mais público, e dentre este, alguns compradores
circunstanciais, e uma recente e maior valorização de aspectos relacionados à
técnica, a determinados procedimentos como o desenho, a pintura, a
gravura.
Hoje, os poucos artistas paraenses que se destacam e aparecem nos salões que
aqui acontecem, esperam surpreender e causar assombro no público fazendo uso de
recursos batidos, já executados de tempos em tempos, reproduzidos ao infinito.
Tal procedimento se faz admirar mais pelo absurdo do pouco engenho, pelo uso da
repetição sem critérios, já que muitas vezes é feito sem conhecimento histórico
e teórico, sem ciência do que já foi feito, como se tudo fosse novo e válido,
ou por outras vezes se apoiam conscienciosamente no pretexto contemporâneo da
releitura e da apropriação de trabalhos. Em termos de projeção da arte e dos
artistas paraenses nas principais capitais brasileiras, como Rio de janeiro,
São Paulo, Brasília, com a realização de exposições, penso que essa
movimentação não se reflete no que temos em Belém em termos de movimentação.
Infelizmente, como tem ocorrido na música, o aparente boom de Belém nos meios
de comunicação de massa parece mais especulação do mercado do que um reflexo
direto do que temos aqui em termos de produção e de investimentos na área da
cultura.
Embora se caracterize por uma
diversidade que vai do desenho a intervenção urbana a tua produção é
eminentemente gráfica; o que te coloca na condição de um artista contemporâneo
que utiliza processos manuais para a criação visual. Deste ponto de vista, é
possível afirmar que a arte conceitual e seus “objetos prontos” não extinguiram
as manualidades do contexto da arte contemporânea, como têm sido frequentemente
cogitado?
Pelo contrário. Percebo que depois de um período de enorme
arrebatamento e fascínio que os ready mades imprimiram nas pessoas ao longo do
século XX, por suas praticidades e possibilidades de expressão, começou-se a se
esboçar um certo cansaço, certa irritação nas pessoas. O excesso de
conceitualismo, quero dizer, o hermetismo de certas obras, impôs um afastamento
do público, o qual não se reconheceu mais ali. Faltam muitas vezes às obras
contemporâneas a capacidade de hoje espelhar o humano, o que vai desembocar
naquilo que Ortega Y Gasset chama de a desumanização da arte. Por outro lado, o
cinema e a música, por exemplo, e ao contrário das artes visuais, gozam hoje de
uma grande aproximação com o público, o que se justifica, dentre outras coisas,
talvez pelo fato de tais linguagens conseguirem falar às pessoas, tocá-las,
espelhá-las de uma forma mais direta. É possível perceber que em certos países
como a China, os Estados Unidos, começam a se impor movimentos de revalorização
da arte figurativa, pautada não só na criatividade dos artistas, mas também em
suas habilidades manuais. Dizer, porém, que o futuro da arte seja esse é algo
complicado. Acredito que as diversas expressões e possibilidades estéticas e
artísticas precisam e podem acontecer e coexistir.
Nos últimos cinquenta anos os
críticos e historiadores foram substituídos pelos curadores e galeristas, que
hoje criam os seus grupos de influências e ditam as regras no interior do
sistema das artes. Além disto, o mercado passou a exigir dos artistas um nível
cada vez maior de profissionalização. Como é que você lida com estas questões
no seu dia-a-dia? Em que aspectos estes fatos influenciam diretamente na
condução do teu trabalho?
Quando comecei a produzir e expor meus trabalhos, ainda na condição de
estudante do curso de artes na UFPA, me sentia muito instigado a entrar,
conhecer e tirar minhas próprias conclusões acerca do meio das artes visuais em
Belém e em outras cidades. Nesse sentido, pelo menos em termos locais, a
experiência com o Grupo A9, um coletivo do qual fiz parte, e dele outros
artistas como Flávio Araujo, Daniely Meireles, Fernando D’Pádua, e que esteve
em atividade entre 2001 e 2004, me permitiu isso. A atuação em grupo, aliás,
foi uma estratégia que permitiu a nossa inserção nesse meio, já que de outro
modo seria complicado. Do fim do grupo até 2008 participei ativamente de
exposições coletivas, salões; fiz três exposições individuais (Pretinho Básico,
2003; O Desenho em Suspensão, 2005; e Color Bars, 2008). De qualquer forma, os
grupos existem, fechados como são, e estabelecem campos de atração e de
repulsão que podem beneficiar e prejudicar artistas. Depois dessa experiência,
sempre busquei me manter neutro em relação a grupos de influências, o que pode
ter me atrapalhado um pouco, em certo sentido. Por outro lado, a liberdade que
se tem para trilhar seu próprio caminho é algo extraordinário. Como sempre vi
minha produção desligada da necessidade de me sustentar financeiramente,
procurando para isso outros meios, não me sinto obrigado a produzir em série e
a estar preso a um único estilo de trabalho, o que a meu ver é algo muito
saudável. Ultimamente, levado pelos experimentos e questionamentos levantados
por minha última exposição, Color Bars, comecei a investigar algumas possibilidades
de imersão no universo da cor, que tem me servido para avaliar os próximos
passos de meu percurso, que ainda estão em processo.
A despeito da enorme pobreza material
que atinge grande parte de sua população (Segundo o Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (PNUD) 43% da população do Pará encontra-se em condição
de pobreza), o Estado do Pará vem sendo apontado pela imprensa especializada
como um lugar culturalmente próspero e que apresenta uma arte contemporânea
singular e muito expressiva. Considerando tais aspectos, seria correto
afirmar que no Pará a “arte pela arte” se impôs como “sistema de crenças que
defende a autonomia da arte” perante a realidade?
Poucos são os artistas paraenses que espelham e apresentam de forma mais crítica
em suas obras abordagens acerca de aspectos sociais de nossa região. É um
fenômeno interessante a ser observado. Na grande parte das vezes, o que se
evidencia é a valorização de elementos estéticos, o destaque ao que é exótico,
a exploração de um ideal ou de um simulacro do que venha a ser o amazônico. A
discussão de temas atuais, como a construção de Belo Monte, por exemplo, com
tudo o que ela trará de impactos ambientais e sociais, é tema que interessa a
poucos artistas, infelizmente. Assim como assuntos como a violência, o
analfabetismo, a questão agrária; da exploração de minérios, a prostituição, a
violência contra a mulher, a pobreza. Acho que hoje os artistas paraenses mais envolvidos com tais questões são a Lucia Gomes, que apesar de estar longe de
Belém, e talvez por isso mesmo, faça trabalhos que visam a denunciar certas
coisas, nas quais a gente está imerso aqui e parece não ver. Outro artista é o
Flávio Araújo, que vem pesquisando acerca da violência urbana de uma forma
bastante contundente. Além destes, nomes como Armando Queiroz, produzem nesse
sentido. O resto, ou é uma produção que se pauta no escatológico pelo
escatológico, ou no hermetismo pelo hermetismo, ou no fofinho de uma arte
fofinha ou cai no clichê do amazônico exótico, infelizmente.
Em setembro de 2012 participaste da
exposição “O Fio Condutor”, realizada na cidade do Rio de Janeiro pela galeria
Graphos: Brasil. Dentre os artistas que integraram a exposição estavam Anna
Bella Gaiger, Waltercio Caldas e Carlos Vergara, nomes importantíssimos no
cenário da arte contemporânea brasileira e internacional. Como foi esta
experiência? Consideras que o teu trabalho atingiu um nível ideal de
amadurecimento?
Ao visitar o Rio de Janeiro, em 2011, busquei conhecer algumas galerias
dessa cidade com a finalidade de ampliar as probabilidades de lugares para
expor meu trabalho. Fui de forma independente, sem indicação de ninguém. Das
várias galerias que visitei, a Graphos: Brasil foi a que me recebeu de braços
abertos. Passamos cerca de um ano conversando sobre a produção dos trabalhos a
ser exibidos lá, e acabamos por decidir pela série de desenhos de postes
e fios, O Desenho em Suspensão. Essa coisa de linhas, fios, acabou servindo
como base para a exposição coletiva que o proprietário da Galeria denominou de
O Fio Condutor. Para mim foi uma experiência extraordinária participar dessa
exposição. Ganhei uma sala individual e vi obras de artistas dos quais sou
admirador há tempos, como é o caso do Vik Muniz, do Carlos Vergara, da Anna
Bella Geiger. Acredito, porém, que essa exposição tenha sido um caso
isolado, já que a Graphos: Brasil não trabalha com representação nem
agenciamento de artistas. Sendo assim, só voltarei a expor lá por ocasiões de
uma nova coletiva ou a realização de uma individual, o que seria maravilhoso,
mas é algo que depende exclusivamente dos interesses e das possibilidades da
galeria. De qualquer forma, a exposição aconteceu, alguns trabalhos ficaram por
lá para serem comercializados, porém, como tive de recorrer a ideias de
trabalhos já realizados do meu portfólio, percebo que a exposição serviu mais
para encerrar uma fase, um ciclo, marcados pelo desenho e por composições
monocromáticas, em preto e branco. Encerrar, aliás, em condições excelentes,
dentro de um meio mais profissional. Agora, envolvido em questões de cores, de
pintura e de representações realistas, diante, portanto, de um universo
totalmente novo, o que há de amadurecimento e de certo é a incerteza e as
surpresas do que estão por vir. A vontade de aprender cada vez mais com o
que está em curso.
* Agradecemos João Cirilo por sua gentileza.